Quando o básico virou automático qual é o novo nível do profissional humano
Rodrigo Nascimento
Diretor de Conteúdo Nascimento Marketing de Conteúdo e Mídias
Quando o assunto é meio indigesto, eu prefiro começar com uma afirmação de senso comum. Então, vamos lá. Durante muito tempo, ser um bom profissional significava executar bem uma tarefa, no caso do jornalismo, escrever, organizar, analisar dados e apresentar versões e interpretações. Hoje, muitas dessas tarefas podem ser realizadas pela inteligência artificial. E sobra uma pergunta: como medir um desempenho considerado bom quando a tecnologia já consegue reproduzir parte dele?
O que antes exigia horas agora pode surgir a partir de um comando. Isso permite assumir mais tarefas e reduzir prazos. Mas não elimina a necessidade de conhecimento. A facilidade expôs a diferença entre quem sabe o que está fazendo e quem produz algo com aparência profissional. Os medianos, aqueles que se orgulhavam de entregar o básico, perderam qualquer diferencial, o que na minha opinião, nunca tiveram. Agora, o básico aparece em segundos, bem apresentado e com uma convicção quase comovente.
Esse movimento pode ser mais salutar do que destrutivo, pois quando qualquer pessoa consegue produzir com ajuda da tecnologia, o mercado exige algo maior. A inteligência artificial elevou o piso, cabe ao profissional humano agora, elevar o teto. Parecer competente nunca foi tão fácil para alguns; o sujeito apresenta uma estratégia que não saberia executar, usa dados que não consegue interpretar e defende ideias que sequer ajudou a construir. Surge uma competência cenográfica, na qual tudo funciona até alguém fazer uma pergunta fora do roteiro ou perceber que a resposta está errada.
A inteligência artificial produz respostas; isso é fato. Também pode errar com enorme segurança, por isso, quem opera a ferramenta precisa saber se o conteúdo faz sentido, se os dados estão corretos e se a conclusão serve para alguma coisa. Usar inteligência artificial não é o mesmo que pensar. O profissional preparado pesquisa, compara, questiona e aprimora, usa a tecnologia para ampliar sua capacidade. O despreparado transfere sua responsabilidade para a máquina, passando então a depender dela.
No meu entendimento, a grande divisão do mercado será entre quem pensa com a inteligência artificial e quem permite que ela pense em seu lugar. Sem repertório, qualquer resposta bem escrita pode parecer verdadeira. O profissional mediano talvez não seja substituído por uma máquina, mas por outro que saiba utilizá-la com mais inteligência. A tecnologia produz volume; o ser humano precisa entregar contexto, sentido e, principalmente, responsabilidade.
O básico virou automático e o novo nível profissional exige aquilo que nenhuma automação deveria nos convencer a abandonar, que está na capacidade de pensar. Quem entendeu isso já começou a trabalhar em outro nível.